Breve resumo das etapas do linho

Esta cultura é muito antiga e a ela estão ligadas tradições que perduram através dos séculos até aos nossos dias, embora se encontre actualmente em vias de extinção. Na Idade Média o trabalho do linho era uma actividade produtiva importantíssima no nosso país. A importância desta planta reflectiu-se até no pagamento das rendas, facto este que documentos actualmente comprovam, e que podia ser feito por dois processos: Linho em molhos de fibras ou já tecido. Cada família semeava o seu campo de linho, tinha as suas rocas e os seus fusos e num canto da casa um tear em madeira para satisfazer as suas necessidades. Fácil será concluir que não era a qualidade que preocupava o produto, mas sim a qualidade. Para além de um tecido mais fino e raro teciam-se sem dúvida grandes quantidades de estopas (fios mais grossos) e com estes satisfaziam-se tanto necessidades provocadas pelas fainas agrícolas (sacos, toldos, etc.) como necessidades de vestuário (lençóis, camisas de trabalho, saias, etc.)...


No distrito de Braga, onde outrora a produção do linho era algo a que todos estavam habituados, apenas presentemente existem pequenos focos de produção espalhados pelas zonas rurais mais interiores de Guimarães, Fafe, Barcelos, Póvoa de Lanhoso e Vila Verde. Nestes locais a produção que substitui permanece exactamente igual à existente há vários séculos atrás, permanecendo os mesmos actos e o mesmo ritual, transmitido de pais para filhos numa sequência de gerações que se perderam no tempo.
A única alteração encontra-se no processo de urdidura da teia que passou a ser feito na sua maior parte em algodão. Mas, por onde quer que passemos hoje, fazendo referência ao linho, as pessoas lamentam-se dizendo que já não há tempo nem "braços para o fazer". Assim os instrumentos de trabalho do linho, andam geralmente arrumados por entre as velharias, recordações ou em muitos casos mesmo destruídos. Os que ainda restam encontram-se na sua maior parte num estado muito degradado, tanto pelo uso que lhe fora dado outrora, como pela falta de uso a que estão lançados no presente.



Sequência dos trabalhos tidos com o linho

O linho passa por imensas fases de transformação desde o seu cultivo até ao produto final.
Homens e mulheres estão ligados à produção do linho ou bragal, mas sobretudo elas quem mais empenhadas estão no seu fabrico. Assim, se a primeira fase do trabalho, desde a sementeira ao engenho é feita muitas vezes pelos homens, a segunda fase é sem duvida a mais demorada e trabalhosa, desde o engenho ao pano é de exclusiva competência das mulheres. Estas são admiradas ou desdenhadas conforme a sua agilidade e competência no trabalho do linho. E como prova desta ligação da vida da mulher com o linho, resta-nos esta frase popular bem antiga:

 
  • Mãe, que é casar?
  • Casar é fiar, parir e chorar.


Deste modo, mal o linho desponta no campo lá começam elas a mondá-lo a limpa-lo de ervas daninhas e sempre que podem vão olhá-lo e cuidá-lo. Nas cantigas elas reflectem isso:

  • Donde vens Maria?
  • Venho da montanha.
  • De ver o teu linho que já tem baganha.

Semear
No mês de Março ou Abril, conforme o tempo, o lavrador prepara a terra para semear o linho. A terra é lavrada, Agradada e Engaçada para receber a semente "linhaça". Com 10 dias de sementeira leva a primeira rega, e depois é regado mais ou menos de 15 em 15 dias.


Arrancada
A colheita do linho é feita no princípio do mês de Julho. Depois de arrancado o linho é levado em Carro de Bois para a eira, e depois é distribuído em "mão cheia" para ripa. Durante o trabalho toda a gente canta e dança canções das fainas agrícolas.


Ripada
As mulheres fazem as "mãos cheias" de linho e entregam-nas aos homens para ripar. Esta operação é feita com ripeiros ou ripaços, que podem ser de vários tamanhos ou tipos.



Em Molhada
O linho depois de ripado é posto em molhos, carregado num carro de bois e levado para o rio.



Enterrado
O linho assim preparado é enterrado no rio ou levada, onde fica submerso na água durante 9 dias para fazer a curtimenta. Durante a ida para o rio e no regresso as pessoas cantam e dançam à frente da tocata.


Secagem

Malhada

linho é estendido na eira e malhado por conjuntos de 4 homens, dois de cada lado, com os malhos de "casula"..


Engenho
Seguidamente é o linho levado para o engenho para moer. Sendo os bois engatados ao engenho para se proceder à moagem do linho. O linho sai do engenho em "maças" com 2 ou 3 metros de comprimento. As "maças" são depois repartidas em estrigas.


Espadada
A Espadelada é sempre feita antes das vindimas. Ao sair do engenho a parte lenhosa do linho vem partida, mas é ainda necessário retirá-la, bem com as partes mais grosseiras da fibra. É a isso que se destina a espadelada. A "Espadelada" tem início pela meia-noite e só termina quando as mulheres tenham terminado o seu "afusal".Alfaias: Espadouro e espadela Durante a noite cantam canções do campo.
  • Espadelar o linho.
  • O linho devagar
  • Espadelar o linho.
  • à noite ao luar.

Arrestelado
Em Setembro, para tirar ao linho a maior parte das arestas era este passado pelo "Restelo" – tábua comprida cheia de picos compridos e largos. Desta operação sai o linho grosso e a estopa.



Corar
O linho era estendido no chão limpo ao sol para corar, havendo o cuidado de o regar sempre que estivesse seco: depois era aberto e batido e levado em cestos, onde se punha a secar em paus ou arames até ficar branco.


Dobar
Depois o linho ia para a dobadoura para dobar em novelos Colocam-se em meadas na dobadoura, porém, são muitos os nós e os emaranhados a desfazer até se obterem novelos. Assim, canta-se como num lamento:


  • Doba, doba dobadoura
  • Não me prendas a meada
  • Deixa correr o novelo
  • Tenho a minha mão cansada.
Urdir

Temos assim o fio pronto para fazer a urdidura da teia e o fio da rama. É então tecido em tear manual.
O linho era geralmente utilizado em:
  • lençóis
  • camisas de homem
  • panos de unto
  • lenços.
  • lenços de pedido
  • saias brancas
  • toalhas de rosto
  • toalhas de mesa